
Elegância francesa no Piemonte
Com praças, monumentos, palácios e cafés que testemunharam seu passado glorioso, Turim é a cidade mais francesa da Itália
Em toda metrópole, o ruído faz parte da rotina. Em São Paulo, o limite parece ter sido ultrapassado. O avanço acelerado da construção civil, aliado à alta densidade populacional e à vida noturna intensa, tem elevado os níveis de poluição sonora a patamares críticos, sobretudo à noite, quando o silêncio deveria prevalecer.
Os números confirmam a percepção de quem perde o sono. No primeiro trimestre de 2026, o Programa Silêncio Urbano (Psiu) registrou 12.848 reclamações — uma alta de 18% em relação ao mesmo período de 2025. Na prática, uma queixa a cada dez minutos. Entre os bairros com mais registros estão Sé, Pinheiros, Vila Mariana, Mooca, Lapa e Vila Prudente, regiões que passam por forte transformação imobiliária.
O principal alvo das queixas é o barulho de obras. O incômodo começa ao amanhecer, com demolições, e avança madrugada adentro, com caminhões, entrega de materiais e maquinário pesado. Pela legislação, o limite é de 59 decibéis entre 19h e 7h, constantemente ultrapassado.
A prefeitura justifica o trabalho noturno como forma de reduzir impactos no trânsito. Recapeamento e obras viárias são feitos de madrugada para evitar congestionamentos, mas o efeito recai sobre moradores, que convivem com uma rotina fragmentada pelo barulho.
“O trânsito não pode ser desculpa para prejudicar a população”, afirma a vereadora Renata Falzoni, autora de um projeto de lei que propõe restringir obras barulhentas entre 21h e 7h.
Além do incômodo, há impactos na saúde. A Organização Mundial da Saúde aponta a poluição sonora como o segundo principal fator causador de dano ambiental. A exposição contínua a ruídos acima de 55 decibéis está associada a distúrbios do sono, estresse, ansiedade e doenças cardiovasculares. Hoje, São Paulo figura entre as cidades mais barulhentas do mundo, com média de 69 decibéis.
A pressão também vem da sociedade civil. A Frente Cidade pela Despoluição Sonora reúne movimentos de moradores e exige maior fiscalização e mudanças na legislação. “A poluição sonora não pode ser tratada como um simples incômodo. É uma questão de saúde pública”, afirma o filósofo Marcelo Sando, idealizador da articulação.
A prefeitura afirma ter realizado quase 18 mil atendimentos de fiscalização no primeiro trimestre de 2026, número bem superior ao do mesmo período do ano passado. Segundo o órgão, a maioria dos estabelecimentos autuados se regulariza após a primeira multa. Para quem convive com o barulho constante, porém, a sensação é de que a fiscalização não acompanha o ritmo das obras.
Enquanto o concreto avança e a cidade cresce, o silêncio se torna cada vez mais raro. E dormir, uma necessidade básica, passa a ser um desafio cotidiano para milhões de paulistanos.
Por Veronica Bilyk, coordenadora do Pró-Pinheiros
Pinheiros bateu recorde. Não em área verde, não em qualidade do ar, não em calçadas acessíveis. O recorde é de reclamações de barulho de obra — e ele diz muito sobre como o bairro está sendo transformado e por quem.
Cada perfuração, cada betoneira às sete da manhã de sábado, cada andaime montado sem aviso representa uma obra que alguém aprovou, um alvará que alguém emitiu, uma fiscalização que alguém deveria fazer — e não fez.
O problema não é a construção em si. É a ausência do Estado no momento seguinte: quando o morador liga para reclamar e nada acontece.
A fiscalização municipal existe no papel. Na prática, é fragmentada, sobrecarregada e sem efetividade. As reclamações se acumulam nos sistemas. As obras continuam. Os moradores aprendem, na exaustão, que denunciar não é suficiente.
Pinheiros está em transformação acelerada. Isso é fato. Mas transformação sem controle não é desenvolvimento — é abandono com maquiagem de progresso.
Quem paga o preço são os que já estão aqui: os que dormem mal, trabalham em casa, criam filhos, envelhecem. Os invisíveis do processo.
O recorde de reclamações não é curiosidade estatística. É um grito. E merece resposta à altura.

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