Projetado por Oscar Niemeyer e inaugurado em 1955, o Edifício Triângulo, na esquina das ruas José Bonifácio e Quintino Bocaiuva, é uma das joias da arquitetura modernista no Centro de São Paulo.
De formato triangular e quinas arredondadas, o edifício permanece em plena atividade, reunindo 72 salas comerciais, com áreas entre 60 e 98 m² distribuídas por 18 andares. Mas suas singularidades começam já do lado de fora: junto à porta principal, um painel de Di Cavalcanti retrata operários com suas ferramentas. Exposto às intempéries há décadas, o mural – que sofreu danos provocados por uma fogueira acesa por pessoas em situação de rua – aguarda restauração.
Ao atravessar a entrada, outra surpresa: para chegar à recepção, é preciso descer uma escada. “É o único prédio em que se tem de descer para poder subir. A solução permitiu liberar mais espaço para lojas no térreo, mas hoje cria dificuldades para carga e descarga e acessibilidade”, conta o zelador Everaldo Batista, morador da cobertura há 28 anos e profundo conhecedor das particularidades do edifício.
As surpresas continuam. A escada em caracol sobe no sentido horário até o 15º andar, quando passa a girar no sentido contrário. A explicação está na legislação urbanística da época. Até os 50 metros de altura, o edifício mantém o desenho originalmente concebido por Niemeyer. A partir desse ponto, porém, os andares precisaram ser recuados para garantir a insolação e a ventilação das ruas – por isso, o sentido da escada foi invertido. Como Niemeyer se recusou a alterar seu projeto, a adaptação foi desenvolvida por seu escritório-satélite em São Paulo, sob coordenação de Carlos Lemos, resultando no escalonamento da parte superior – conhecida como “bolo de noiva”. “Foi a primeira obra de Niemeyer que a Prefeitura não aprovou. Ele ficou chateado”, conta Everaldo.
As surpresas não acabam aí: nenhum hall é igual ao outro, com exceção do primeiro e do décimo andares, que têm as mesmas dimensões. Os pilares também variam de espessura, tornando-se mais delgados conforme o edifício ganha altura, enquanto algumas salas preservam soluções pouco usuais, como banheiros externos.
Apesar das adaptações realizadas ao longo das décadas – os brises de alumínio foram retirados por causa do barulho provocado pela chuva e a escada envidraçada recebeu fechamento em concreto por questões de segurança –, o Triângulo preserva a essência da arquitetura de Niemeyer: curvas elegantes, pilares esbeltos, abundância de luz natural e uma relação privilegiada com a cidade.
“Trouxe meu escritório para cá em 2022, e meu ritmo de trabalho mudou. A luz é incrível e existe uma energia muito especial neste prédio”, resume o síndico Davi Santos Pillon.